9 de Julho
SUSANA SILVA
O ressurgimento da prática da música antiga em Portugal na primeira parte do século XX (1900-1946)
O fenómeno crescente do interesse pela música do passado, e a consequente procura por métodos e estilos de interpretação adequados, têm marcado significativamente a nossa forma de fazer e ouvir música. Se analisarmos o panorama musical europeu e americano nos últimos sessenta anos, rapidamente nos apercebemos do importante espaço que este fenómeno tem vindo a ocupar, quer em termos do número crescente de indivíduos e instituições que se dedicam a este tipo de prática e a todas as questões a ela associadas, quer pelo forte impacto na economia, e não menos importante, pela grande aceitação que esta música tem junto ao público em geral. De facto, podemos mesmo afirmar que, investigar, fazer ou ouvir este tipo de música, é nos dias de hoje, praticamente uma moda, sendo raro o músico ou ouvinte que em alguma altura da sua vida não se tenha interessado por este tipo de repertório. Talvez isto explique o facto de que até aos anos 80 do século XX, "música antiga" designar exclusivamente música composta até ao final do período barroco; e que hoje em dia são frequentes interpretações históricas de obras de Beethoven, Brahms e até mesmo Wagner, denotando qualquer tipo de prática musical que tenha preocupações históricas, e que seja reconstruída com base em partituras, tratados, instrumentos outras evidências históricas sobreviventes.
Examinando o panorama português, presenciamos um significativo acréscimo do interesse por este tipo de música e pelas suas respectivas práticas interpretativas, tendo em conta que passaram pouco mais de cinquenta anos, desde que se estabeleceram em Portugal, os primeiros grupos profissionais especializados na prática deste repertório, dos quais os Menestréis de Lisboa (com direcção de Santiago Kastner), o Grupo de Música Antiga (criado em 1963, com direcção de Safford Cape), ou ainda, os Segréis de Lisboa (criados, por Manuel Morais, em 1972, encontrando-se hoje, em plena actividade).
É importante, pois restaurar os passos que precederam este processo, bem como, estabelecer um paralelo com os movimentos de ressurgimento da prática da música antiga de outros países europeus e norte-americanos, iniciados na primeira metade do século XIX, e cujo maior evento, foi sem dúvida a primeira apresentação moderna da Paixão Segundo São Mateus, dirigida por Felix Mendelssohn Bartholdy (1809-1847), na Stately Singakademie, em Berlim, no mês de Março de 1829.
No caso do nosso país, os primeiros indícios deste interesse datam da primeira década do século XX, estando essencialmente associados às figuras de Ernesto Vieira, de Michel'angelo Lambertini e de Alfredo Keil que, neste sentido, deram, de facto, um contributo essencial na divulgação do repertório e dos instrumentos pré-clássicos. Essencial neste processo é também o trabalho de Ivo Cruz, nomeadamente, o realizado junto da Orquestra Filarmónica de Lisboa e da Sociedade Coral de Duarte Lobo, nas décadas de 30 e 40, e do qual se destacam as apresentações das duas Paixões de J.S.Bach, entre outras grandes obras pertencentes ao repertório coral do período barroco.
Embora este projecto assente essencialmente na reconstrução dos acontecimentos relacionados com a prática do repertório pré-clássico, é essencial mostrar a importância para este movimento do despontar da musicologia histórica em Portugal, nomeadamente através dos trabalhos pioneiros de Manuel Joaquim, Mário Sampaio Ribeiro e, principalmente, de Macário Santiago Kastner e assim perceber qual a sua verdadeira contribuição na criação de um repertório antigo nacional.
Palavras-chave: música antiga, autenticidade, concertos históricos, instrumentos históricos, museu instrumental
O fenómeno crescente do interesse pela música do passado, e a consequente procura por métodos e estilos de interpretação adequados, têm marcado significativamente a nossa forma de fazer e ouvir música. Se analisarmos o panorama musical europeu e americano nos últimos sessenta anos, rapidamente nos apercebemos do importante espaço que este fenómeno tem vindo a ocupar, quer em termos do número crescente de indivíduos e instituições que se dedicam a este tipo de prática e a todas as questões a ela associadas, quer pelo forte impacto na economia, e não menos importante, pela grande aceitação que esta música tem junto ao público em geral. De facto, podemos mesmo afirmar que, investigar, fazer ou ouvir este tipo de música, é nos dias de hoje, praticamente uma moda, sendo raro o músico ou ouvinte que em alguma altura da sua vida não se tenha interessado por este tipo de repertório. Talvez isto explique o facto de que até aos anos 80 do século XX, "música antiga" designar exclusivamente música composta até ao final do período barroco; e que hoje em dia são frequentes interpretações históricas de obras de Beethoven, Brahms e até mesmo Wagner, denotando qualquer tipo de prática musical que tenha preocupações históricas, e que seja reconstruída com base em partituras, tratados, instrumentos outras evidências históricas sobreviventes.
Examinando o panorama português, presenciamos um significativo acréscimo do interesse por este tipo de música e pelas suas respectivas práticas interpretativas, tendo em conta que passaram pouco mais de cinquenta anos, desde que se estabeleceram em Portugal, os primeiros grupos profissionais especializados na prática deste repertório, dos quais os Menestréis de Lisboa (com direcção de Santiago Kastner), o Grupo de Música Antiga (criado em 1963, com direcção de Safford Cape), ou ainda, os Segréis de Lisboa (criados, por Manuel Morais, em 1972, encontrando-se hoje, em plena actividade).
É importante, pois restaurar os passos que precederam este processo, bem como, estabelecer um paralelo com os movimentos de ressurgimento da prática da música antiga de outros países europeus e norte-americanos, iniciados na primeira metade do século XIX, e cujo maior evento, foi sem dúvida a primeira apresentação moderna da Paixão Segundo São Mateus, dirigida por Felix Mendelssohn Bartholdy (1809-1847), na Stately Singakademie, em Berlim, no mês de Março de 1829.
No caso do nosso país, os primeiros indícios deste interesse datam da primeira década do século XX, estando essencialmente associados às figuras de Ernesto Vieira, de Michel'angelo Lambertini e de Alfredo Keil que, neste sentido, deram, de facto, um contributo essencial na divulgação do repertório e dos instrumentos pré-clássicos. Essencial neste processo é também o trabalho de Ivo Cruz, nomeadamente, o realizado junto da Orquestra Filarmónica de Lisboa e da Sociedade Coral de Duarte Lobo, nas décadas de 30 e 40, e do qual se destacam as apresentações das duas Paixões de J.S.Bach, entre outras grandes obras pertencentes ao repertório coral do período barroco.
Embora este projecto assente essencialmente na reconstrução dos acontecimentos relacionados com a prática do repertório pré-clássico, é essencial mostrar a importância para este movimento do despontar da musicologia histórica em Portugal, nomeadamente através dos trabalhos pioneiros de Manuel Joaquim, Mário Sampaio Ribeiro e, principalmente, de Macário Santiago Kastner e assim perceber qual a sua verdadeira contribuição na criação de um repertório antigo nacional.
Palavras-chave: música antiga, autenticidade, concertos históricos, instrumentos históricos, museu instrumental



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